Marcelo Falcão exibe pouco fôlego como compositor em álbum solo de repertório leve, valorizado pela produção

(Foto: Jaques Dequeker / Divulgação)

A audição do primeiro álbum solo de Marcelo Falcão, Viver (Mais leve que o ar), soa quase como anticlímax após quatro singles que deram todas as pistas do (pouco) que se podia esperar do disco, aposta da gravadora Warner Music neste ano de 2019.

E pode-se dizer que o álbum cumpre a baixa expectativa gerada pelos singles autorais Viver (Marcelo Falcão e Ademir Custódio), Eu quero ver o marDiz aí e Só por você. A questão primordial é que Falcão mostra reduzido fôlego como compositor.

A decisão do artista carioca de se lançar na carreira solo com um disco inteiramente autoral é equivocada, para não dizer suicida. O álbum Viver (Mais leve que o ar) soa repetitivo e parece ainda mais longo do que os 66 minutos de duração.

Capa do primeiro álbum solo de Marcelo Falcão, 'Viver (Mais leve que o ar)' — Foto: Jaques Dequeker

(Capa do primeiro álbum solo de Marcelo Falcão, ‘Viver (Mais leve que o ar)’ — Foto: Jaques Dequeker)

Como alguns discos gravados pela banda O Rappa após a saída de Marcelo Yuka (1965 – 2019), o álbum solo de Marcelo Falcão tem o maior trunfo na azeitada produção, orquestrada por Felipe Rodarte com o próprio Falcão, do que nas músicas.

Calcada em sonoridade pop que justifica a leveza anunciada pelo título Viver (Mais leve que o ar), essa produção valoriza cancioneiro quase pueril na propagação de boas vibrações. Tal desequilíbrio entre repertório e produção também já havia sido detectado na série de singles que precederam a edição do álbum, enfim disponibilizado hoje, 15 de fevereiro.

Musicalmente, o disco se situa em torno da praia do reggae, como ratificam músicas de romantismo trivial como Quando você olha pra mim.

A arregimentação de músicos como Bino Faria, (baixo), Felipe Boquinha (bateria), Ferinha (teclados), João Fera (teclados), Laudz (teclados), Marcos Suzano (percussão) e Zegon (efeitos), além do DJ Negralha (scratches e efeitos), gerou big-band que possibilitou a execução dos arranjos classudos.

Marcelo Falcão fica na praia do reggae com leveza pop em álbum solo lançado hoje, 15 de fevereiro — Foto: Jaques Dequeker / Divulgação

(Marcelo Falcão fica na praia do reggae com leveza pop em álbum solo lançado hoje, 15 de fevereiro — Foto: Jaques Dequeker / Divulgação)

A sonoridade do álbum acentua os metais soprados por Enéas, Edesio Gomes e Vinícius de Souza em músicas como Meu caminho. A cama instrumental é tão mais luxuosa do que as músicas que os produtores enfatizam a sonoridade do disco em arranjos que fazem quase todas as faixas ultrapassarem os cinco minutos de duração, sendo que a já mencionada Eu quero ver o mar – cuja letra exemplifica a forma rasa como Falcão mergulha eventualmente em questões sociais no álbum – chega aos inacreditáveis oito minutos e 28 segundos.

Mesmo com pouco fôlego melódico, traço recorrente de músicas como I don’t wanna be king, a também já citada Diz aí se destaca no repertório pelo efeito mântrico do arranjo e pela intervenção do cantor e rastamanjamaicano Cedric Myton, vocalista de bandas como The Bell Stars e The Congos.

Como alardeia já nos versos iniciais da primeira música do álbum, Hoje eu decidi, repleta de efeitos sonoros, Falcão parece ter esquecido “broncas e mágoas de outrora”, partindo para outro caminho musical, fazendo um disco mais solar e mais leve do que a obra de peso (inicial) da banda que lhe deu projeção na década de 1990.

Contudo, Marcelo Falcão jamais consegue fazer a diferença ao longo das 13 faixas deste decepcionante álbum solo Viver (Mais leve que o ar). (Cotação: * * 1/2)

Fonte: G1