Dorival Caymmi é humanizado com ‘dose natural de simpatia’ em filme focado na obra transcendental do compositor

(Foto: Divulgação / 'É tudo verdade')

Antes mesmo de ter saído de cena, aos 94 anos, Dorival Caymmi (30 de abril de 1914 – 16 de agosto de 2008) já tinha virado mito por conta do cancioneiro transcendental que emergiu das águas da Bahia na década de 1930 e ganhou contornos urbanos na safra carioca de sambas-canção compostos a partir dos anos 1940.

Sem nunca ter perdido de vista a velha São Salvador, cidade-matriz das canções praieiras e dos sambas buliçosos, Caymmi conquistou o mundo e a eternidade a partir da Bahia retratada com o olhar romântico da juventude.

No documentário Dorival Caymmi – Um homem de afetos, em cartaz a partir de hoje na 24ª edição do Festival Internacional de Documentários É Tudo Verdade em sessões agendadas até sábado nas cidades de São Paulo (SP) e Rio de Janeiro (RJ), a diretora e roteirista paulistana Daniela Broitman jamais tira o foco da obra.

O mote do filme é a obra desse artista que transcendeu a existência terrena através do cancioneiro carregado de poesia, beleza e sensibilidade, atributos ratificados por Caetano Veloso em depoimento para este que já é o terceiro documentário feito sobre o compositor.

Entre justas exaltações dessa obra na narrativa conduzida por trechos de inédita entrevista concedida por Caymmi no Rio de Janeiro em 1998, quando o artista então contabilizava 84 anos, a cineasta ilumina traços do homem encoberto pela obra.

Dorival Caymmi na juventude — Foto: Divulgação / Festival 'É tudo verdade'

(Dorival Caymmi na juventude — Foto: Divulgação / Festival ‘É tudo verdade’)

Essa face mais humana é exposta sobretudo através dos depoimentos dos filhos Dori Caymmi, Nana Caymmi e Danilo Caymmi, o temporão com quem o patriarca sempre teve mais afinidade. “Foi feia a coisa”, resume Nana Caymmi quando o foco do filme é o apego de Caymmi ao álcool na década de 1960.

A mesma Nana recorda o pulso machista do pai quando Caymmi ficou sete anos sem falar com a filha por se recusar a aceitar a decisão de Nana de se separar do primeiro marido, com quem se casou e viveu na Venezuela.

Corroborado pela sociedade da época, o comportamento machista de Caymmi também se refletiu na infidelidade recorrente no casamento com Stella Maris (1922 – 2008), a mulher de pulso firme que sabia a dar decisão no marido quando sabia de alguma amante, como relata caso contado pela cozinheira da família, Cristiane Oliveira, em depoimento que também humaniza o artista envolto em aura mitológica.

Por mais desafinado que tenha sido, nenhum traço da vida pessoal de Caymmi conseguiu embaçar o brilho da obra magnânima, referencial. “Dorival Caymmi é. Não foi. Sou fluxo decorrente dele”, sentencia Gilberto Gil, compositor que cunhou no título de música de 1992 o epíteto, Buda nagô, que mais bem traduz a transcendência, inclusive espiritual, de Caymmi.

O filme reitera que ele era devoto tanto do Candomblé como do catolicismo, em religiosidade que reproduzia o sincretismo vigente sobretudo na Bahia de todos os santos e orixás.

Dorival Caymmi com a mulher Stella Maris: casos de infidelidade do artista são revividos no documentário — Foto: Divulgação / Festival 'É tudo verdade'

(Dorival Caymmi com a mulher Stella Maris: casos de infidelidade do artista são revividos no documentário — Foto: Divulgação / Festival ‘É tudo verdade’)

A cineasta Daniela Broitman entendeu que a obra encobre o homem. Essa afetuosa percepção engrandece o filme, cujo roteiro encadeia com fluência trechos da entrevista inédita de 1998, depoimentos sobre Caymmi e retratos belíssimos do mar da Bahia, além de imagens de arquivo como um trecho do filme Capitães de areia ao som de versão em russo da Canção da partida (1957), tema da suíte Histórias de pescadores.

A mesma canção é abordada em encontro de Caymmi com Antonio Carlos Jobim (1927 – 1994) e com a Banda Nova, outro trunfo do roteiro.

Entre uma fala e outra do filme, ouve-se as obras-primas do compositor na voz grave – doce e profunda como o mar – do autor de O vento(1949), música que abre e arremata o roteiro.

Alguns depoentes cantores também cantam. Ao solar o samba-canção Não tem solução (Dorival Caymmi e Carlos Guinle, 1951) diante das câmeras de Broitman, sem qualquer suporte instrumental, Nana Caymmi desafia a noção corrente de que ninguém canta Caymmi como o próprio Caymmi.

Se Gilberto Gil puxa o Samba da minha terra (Dorival Caymmi, 1940), Caetano Veloso exprime com precisão a melancolia de Saudade da Bahia (Dorival Caymmi, 1957).

Dorival Caymmi é retratado com afeto no filme conduzido a partir de entrevista inédita dada pelo artista em 1998 — Foto: Cristina Granato / Divulgação

(Dorival Caymmi é retratado com afeto no filme conduzido a partir de entrevista inédita dada pelo artista em 1998 — Foto: Cristina Granato / Divulgação)

O afeto jamais deixar de pautar o filme de Daniela Broitman, mesmo quando o foco é direcionado para traço mais humano do caráter do artista.

Em essência, Dorival Caymmi é retratado com a “dose natural de simpatia” mencionada pelo próprio artista no início do filme quando se refere a si mesmo.

Vinte anos após ter sido enfocado pelas lentes do cineasta Aluísio Didier no filme Um certo Dorival Caymmi (1999), o nobre artesão das canções praieiras, dos sambas buliçosos e dos sambas-canção sem dramaticidade reaparece na tela em afetuoso recorte cinematográfico.

Nenhum mal há nisso. Qualquer elogio superlativo direcionado a Caymmi soa natural, pois, em se tratando deste artista transcendental, é mesmo tudo verdade.

Fonte: G1