Bibi Ferreira canta com sabedoria o repertório de Frank Sinatra em álbum que se tornou póstumo

(Foto: Tata Barreto / TV Globo)

Bibi Ferreira (1º de junho de 1922 – 13 de fevereiro de 2019) tinha conhecimento extraordinário dos meandros e significados do repertório a que deu voz em discos e nos palcos em que estrelou musicais que, nos anos 1960, importaram com sucesso para o Brasil o modelo teatral norte-americano que encantava o mundo na Broadway.

Foi com essa sabedoria que a atriz e cantora carioca entrou no estúdio da gravadora Biscoito Fino, no segundo semestre de 2017, para gravar um álbum que se tornou póstumo com a morte da artista em fevereiro deste ano de 2019.

Gravado quando Bibi já contabilizava 95 anos de vida, o álbum Bibi Ferreira canta Sinatra é o registro de estúdio do show que estreou em setembro de 2014, na cidade de São Paulo (SP), e que na sequência percorreu o Brasil em turnê que se tornou internacional com a apresentação do show em Nova York (EUA), cidade imortalizada no cancioneiro do cantor norte-americano Frank Sinatra (1915 – 1998), uma das referências máximas de voz masculina do século XX.

Capa do álbum 'Bibi Ferreira canta Sinatra' — Foto: Divulgação

(Capa do álbum ‘Bibi Ferreira canta Sinatra’ — Foto: Divulgação)

Aos 95 anos, Bibi evidentemente já não estava no auge da forma vocal quando encarou o repertório de Sinatra no estúdio. Sempre afinada, a voz já perdera volume e viço. Mas aí entrou a sabedoria dessa intérprete de apurado senso rítmico.

Precedido pelo single com o medley que encadeia Night and day (Cole Porter, 1932) e I’ve got you under my skin (Cole Porter, 1936), o álbum enquadra a voz de Bibi na moldura orquestral construída sob a regência do maestro Flavio Mendes.

Ouvi-la cantar You make me feel so young (Josep Myrow e Mack Gordon, 1946) é comprovar a jovialidade artística que insistia em habitar a alma de Bibi Ferreira.

Foi com a pronúncia perfeita do inglês da senhora rigorosamente educada à moda antiga – e com o espírito jovial da eterna menina que nunca teve idade no exercício da arte – que Bibi chutou I get a kick of you (Cole Porter, 1934) para o gol e que pareceu surfar com leveza sobre a onda rítmica em que navega The lady is a tramp (Richard Rodgers e Lorenz Hart, 1937), standard emendado com All the way (Jimmy Van Heusen e Sammy Cahn, 1957) na costura fina do disco.

Bibi Ferreira em 2017 com o maestro Flavio Mendes no estúdio da gravadora Biscoito Fino — Foto: Reprodução / Facebook

(Bibi Ferreira em 2017 com o maestro Flavio Mendes no estúdio da gravadora Biscoito Fino — Foto: Reprodução / Facebook)

Do jeito dela, Bibi soube lapidar as joias da canção norte-americana com a mesma desenvoltura com que caiu na maciez da bossa brasileira em sintonia com a suavidade do arranjo do medley aberto com Meditação / Meditation (Antonio Carlos Jobim e Newton Mendonça, 1959, em versão em inglês de Norman Gimbel, 1963) e continuado com Quiet nights of quiet stars / Corcovado (Antonio Carlos Jobim, 1960, em versão inglês de Gene Lees, 1965) até desembocar na versão em inglês do afro-samba Água de beber (Antonio Carlos Jobim e Vinicius de Moraes, 1961).

Sim, como Frank Sinatra, Bibi Ferreira fez tudo do jeito dela. O que dá sentido adicional ao fato de My way (Comme d’habitude) (Claude François e Jacques Revaux, 1967, em versão em inglês de Paul Anka, 1969) encerrar este último álbum de Abigail Izquierdo Ferreira, a grande e imortal Bibi.

Agora, que o fim antes presumivelmente próximo já chegou, pode-se dizer que Bibi viveu uma vida de artista completa. E, do jeito sempre magistral dela, nenhuma outra atriz cantora conseguiu seguir o passo sempre certeiro de Bibi Ferreira na caminhada inigualável da vida de artista.

Fonte: G1