Adriana Calcanhotto zanza pela viagem marítima que quebra na onda moderna do álbum ‘Margem’

Fonte: Leo Aversa / Divulgação

“Margem, zanzei pela viagem”, sintetiza Adriana Calcanhotto em verso de Margem, samba que partiu da batida da Bossa Nova, onda que se ergueu no mar da música do Brasil em 1958, para vislumbrar o horizonte contemporâneo que banha sons atuais do país em outras ondas de modernidade de menor alcance.

É nessa onda contemporânea que surfa Margem, álbum lançado hoje, 7 de junho, por essa artista gaúcha que caminhou do Sul para, no fim dos anos 1980, dar no mar do Rio de Janeiro (RJ), cidade onde ancorou para se firmar como uma das mais finas estilistas da música brasileira pós-Bossa Nova.

Margem é o 15º álbum da discografia de Calcanhotto – contabilizados os três discos infantis gravados em estúdio pela artista com o heterônimo de Adriana Partimpim – e o terceiro de trilogia marítima iniciada há 21 anos com Maritmo (1998) e desenvolvida há 11 anos com Maré (2008).

Adriana Calcanhotto supera Maria Bethânia na gravação de 'Era para ser', canção lançada na voz da intérprete baiana em 2016 — Foto: Leo Aversa / Divulgação

(Adriana Calcanhotto supera Maria Bethânia na gravação de ‘Era para ser’, canção lançada na voz da intérprete baiana em 2016 — Foto: Leo Aversa / Divulgação)

A leitura dos comentários de Calcanhotto sobre cada uma das nove músicas do álbum Margem deixa entrever uma artista zanzando pela própria obra para completar o roteiro da atual viagem marítima.

Nessa viagem, Calcanhotto pescou (boa) música feita por Péricles Cavalcanti para o álbum Maré – O príncipe das marés, gravada em 2008 para segundo disco da trilogia, descartada e então registrada pelo compositor em 2013 em obscuro registro fonográfico – e dá voz a uma apaixonada canção autoral, Tua (2009), composta em Roma e lançada na voz de Maria Bethânia em álbum editado há dez anos.

Como a própria Calcanhotto reconhece no comentário sobre a faixa, o registro de Tua pela compositora é inferior ao da intérprete. Já Era pra ser (2016), música também lançada por Bethânia, subverte a expectativa e ressurge superior na voz da autora, remetendo ao clima triste do fado por conta do arranjo calcado no toque evocativo de guitarra portuguesa.

Adriana Calcanhotto aproveita músicas pensadas para o repertório de 'Maré', álbum anterior da trilogia marítima — Foto: Leo Aversa

(Adriana Calcanhotto aproveita músicas pensadas para o repertório de ‘Maré’, álbum anterior da trilogia marítima — Foto: Leo Aversa)

Samba que entra na roda baiana para depois cair no suingue nortista no toque da guitarra de Bem Gil, Lá lá lá também é música feita para o álbum Maré que emerge 11 anos depois em Margem como joia escondida no fundo do mar de Calcanhotto.

Outra canção, Dessa vez, foi composta em 2016, gravada em Lisboa e já jazia no fundo da memória da artista, tendo vindo à tona graças ao entusiasmo dos músicos no estúdio ao ouvir a balada, mostrada por engano. E, dessa vez, o entusiasmo é justo: a balada é mesmo bonita e teria cacife para se tornar um dos hits radiofônicos de Calcanhotto se ainda houvesse a possibilidade de artista da geração dessa cantora emplacar hits radiofônicos…

Fosse de cantora menos inteligente, Margem soaria como disco diluído por ondas que quebram o conceito. Mas Margem é um álbum de Calcanhotto, artesã que lapida canções próprias e alheias – e como não se render à beleza da canção Os ilhéus (José Miguel Wisnik sobre poema de Antonio Cicero, 2011), até então oculta em disco de José Miguel Wisnik? O poema de Antonio Cicero versa sobre ondas, vindas até do céu, que podem destruir civilizações.

Capa do álbum 'Margem', de Adriana Calcanhotto — Foto: Murilo Alvesso

(Capa do álbum ‘Margem’, de Adriana Calcanhotto — Foto: Murilo Alvesso)

Espécie de trip-hop ancorado no mar da Bahia, lançado como single em 1º de fevereiro para apontar a chegada do álbum Margem no horizonte, Ogunté também versa sobre um mundo em decomposição. A faixa é mergulho, feito com consciência social, nas águas que servem tanto de trânsito para os refugiados como de depósito impróprio para o plástico jogado nos mares por descaso ambiental.

Ogunté se alinha ao lado de O bonde como as faixas mais ousadas de MargemO bonde é antenado funk gravado em 150 BPM por Calcanhotto (nas programações) com o baixo de Bruno Di Lullo, com o beat box do baterista Rafael Rocha e com uma onda de modernidade que bate na praia onde o álbum Margem se escora entre músicas novas e antigas, mostrando que Adriana Calcanhotto, mesmo zanzando na viagem, jamais perde o bonde.

Fonte: G1