‘Elis e eu’ é livro tocante sobre o amor de mãe na memória afetuosa de João Marcello Bôscoli

Foto: Silvio Correia / Reprodução livro

A despeito de ter sido uma das maiores cantoras do Brasil em todos os tempos, Elis Regina Carvalho Costa (17 de março de 1945 – 19 de janeiro de 1982) foi também – e sobretudo – mãe.

Essa senhora cantora “pediu pelas mulheres e pelos filhos” com a grandeza exposta na veia poética de Ana Terra, letrista e parceira de Joyce Moreno na canção de 1979, Essa mulher, que deu nome ao álbum lançado por Elis naquele ano, soando como sensível retrato feminino da artista.

Essa mulher por vezes se permitiu ser menina no trato com os três filhos sem deixar de ser a leoa zelosa e cobradora da conduta ética das crias que lambia com a mesma intensidade com que as castigava se detectava algum deslize de comportamento.

Prefaciado por Rita Lee, o livro Elis e eu – 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe versa afetuosamente sobre esse amor de mãe sob a ótica e com o texto fluente do primogênito de Elis, João Marcello Bôscoli. Já à venda, o livro tem sessão de autógrafos programada para as 19h desta quinta-feira, 7 de novembro, na Livraria da Vila, na cidade de São Paulo (SP).

João Marcello Bôscoli e Elis Regina em foto publicada no livro 'Elis e eu' — Foto: Divulgação

(João Marcello Bôscoli e Elis Regina em foto publicada no livro ‘Elis e eu’ — Foto: Divulgação)

Os quatro primeiros capítulos – do total de 15 que compõem narrativa sucinta que inclui introdução e posfácio, além de carta de Elis para o filho – são os mais impactantes do livro Elis e eu porque, neles, Bôscoli narra os bastidores dos últimos dias de Elis e a sensação de isolamento físico e emocional do filho mais velho após a precoce saída de cena da mãe, vítima aos 36 anos de combinação letal de cinzano e cocaína.

São doses fortes que dão no leitor um choque de realidade quando Bôscoli descreve os ruídos de festa na casa de Elis com idas frequentes dos convidados ao banheiro para “inalações rápidas”, como descreve o autor. Sim, Elis já estava na roda em 1981, embora tivesse tido (sincera) aversão às drogas ao longo de quase toda a vida breve.

Para Bôscoli, a bad trip começou com a morte de Elis e com o imediato desmonte do circo armado em torno da cantora por bajuladores e aproveitadores que, tão logo Elis partiu, cortaram a corrente afetuosa que mantinham hipocritamente com aquele pré-adolescente que ainda não sabia toda a dor e da delícia de ser filho de Elis Regina.

João Marcello Bôscoli lança o livro 'Elis e eu' em São Paulo nesta quinta-feira, 7 de novembro, às 19h, em sessão de autógrafos na Livraria da Vila — Foto: Rogério Alonso / Divulgação

(João Marcello Bôscoli lança o livro ‘Elis e eu’ em São Paulo nesta quinta-feira, 7 de novembro, às 19h, em sessão de autógrafos na Livraria da Vila — Foto: Rogério Alonso / Divulgação)

Contudo, a maior parte do livro expõe as memórias afetivas da infância de Bôscoli com a mãe assim que se encerra a descrição da realidade nua e crua descortinada para um menino de 11 anos que se viu subitamente sem teto e sem vontade de morar com o pai, Ronaldo Bôscoli (1928 – 1994), de quem foi mantido à distância por imposição da mãe.

Aliás, o entendimento da cantora com o ex-marido a respeito do filho aconteceu somente em 1981, tardiamente mas ainda em tempo de selar a paz, como relata João Marcello em outra passagem tocante do livro.

A rigor, já existem duas biografias substanciais sobre a vida vertiginosa dessa senhora cantora e mãe, Furacão Elis (1985) e Elis Regina – Nada será como antes (2015), lançada pelo jornalista Julio Maria 30 anos após o relato apaixonado de Regina Echeverria.

A existência dessas duas biografias jamais tira o valor de Elis e eu porque o livro de João Marcello Bôscoli não se prende a datas e a dados cronológicos. É relato íntimo e pessoal de quem foi privilegiada testemunha ocular de parte da história de Elis.

Capa do livro 'Elis e eu – 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe', de João Marcello Bôscoli — Foto: Silvio Correia(Capa do livro ‘Elis e eu – 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe’, de João Marcello Bôscoli — Foto: Silvio Correia)

O livro expõe a visão de quem conviveu com a cantora e a mãe no espaço privado da intimidade familiar, longe das câmeras. E que por isso mesmo percebeu a grandeza do sempre afetuoso padrasto, César Camargo Mariano, quando o furacão da morte devastou a vida da família em 19 de janeiro de 1982.

Desse quadro familiar retratado no livro, inclusive com fotos raras, importam menos as descrições das travessuras infanto-juvenis do menino João e mais as ações e reações de Elis diante das traquinagens do filho.

É quando aparece nas páginas do livro a mãe-leoa que, para repreender molecagem do filho, não hesitou em fazer João dormir no corredor do prédio em que morava. E que, mesmo sem travessura, decidiu mandá-lo para escola pública para tomar contato com a realidade de um Brasil que sente fome e frio.

É nesse sentido que Elis e eu – 11 anos, 6 meses e 19 dias com minha mãe toca o leitor ao convidá-lo a adentrar a intimidade de casa em que o amor de mãe era o alimento primordial. Alimento que sustenta o livro quando a narrativa de João Marcello Bôscoli perde o impacto inicial.

Fonte: G1