Bem de perto, Maria Bethânia conserva a habitual magnitude sob a luz intensa do show ‘Claros breus’

Foto: Mauro Ferreira / G1

“Enfim, sós”, gracejou Maria Bethânia no palco do clube carioca Manouche para os cerca de 100 privilegiados espectadores que assistiram à primeira apresentação do show Claros breus na noite de quinta-feira, 4 de julho.

Feito após o canto macio do samba-canção Sábado em Copacabana(Dorival Caymmi e Carlos Guinle, 1951), o gracejo serviu de introdução a um texto informal em que a cantora saudou os tempos em que se apresentava em boates da cidade do Rio de Janeiro (RJ).

“Sinto saudade dessa naturalidade da vida, dessa entrega, desse rodar de sentimentos. A noite parecia um diamante”, filosofou com a voz grave, pedra preciosa lapidada desde os anos 1960, década em que Bethânia podia ser vista e ouvida bem de perto na intimidade das boates.

Passados 50 anos, a opção da cantora de fazer quatro pré-estreias do show Claros breus no Manouche – charmoso clube com clima de cabaré que vem sobressaindo na programação carioca – reitera a certeza de que Bethânia é grande sob qualquer ângulo.

Maria Bethânia se apresenta em cena sob a direção de Bia Lessa no show 'Claros breus' — Foto: Mauro Ferreira / G1

(Maria Bethânia se apresenta em cena sob a direção de Bia Lessa no show ‘Claros breus’ — Foto: Mauro Ferreira / G1)

Vista bem de perto (como no Manouche) ou mais de longe (como nas grandes casas que abrigarão o show na turnê que percorrerá Brasil e Portugal a partir de agosto), Bethânia conserva a habitual magnitude sob a luz intensa do show Claros breus.

Sob a direção de Bia Lessa, Bethânia fica em estado de poesia, cantando na melhor das formas vocais um roteiro de 30 músicas que alinhava inédita costura de repertório, com a assinatura forte que a distancia do posto de mera crooner de boate.

Houve uma renovação na banda e na sonoridade, pelo fato de os arranjos terem sido confiados ao excepcional maestro Letieres Leite (mentor da Orkestra Rumpilezz), mas o show Claros breus jamais esboça rupturas com a estética de Bethânia.

Maria Bethânia canta música inédita de Adriana Calcanhotto no show 'Claros breus' — Foto: Mauro Ferreira / G1

(Maria Bethânia canta música inédita de Adriana Calcanhotto no show ‘Claros breus’ — Foto: Mauro Ferreira / G1)

Cantora que jamais se molda a produtores e diretores musicais, fazendo com que estes se adequem ao estilo da artista, Bethânia é a intérprete que pesa e ainda assim flutua, como na balada O universo na cabeça do alfinete (Lenine e Lula Queiroga, 2015).

É a cantora que se afoga no sertão de lágrimas poetizado por Adriana Calcanhotto na inédita A flor encarnada (2019) – música acomodada na suavidade da batida do samba-canção, gênero talhado para o escurinho das boates – e ainda assim voa que nem carcará, ou que nem a Águia nordestina (inédita de Chico César), seca, mas banhada de sentimentos e de orgulhosa brasilidade.

Em Claros breus, Bethânia também é a mulher que se deixa seduzir pelas femininas Pernas (1960) torneadas por Sérgio Ricardo nos contornos de samba inédito na voz da artista.

“Não me peça o que eu não quero ter“, sentencia a cantora, imperativa, em verso de Juntar o que sentir (Renato Teixeira, 2001), outra música do roteiro surpreendente“Não tire da minha mão esse copo”, ordena novamente, através de verso de Gota de sangue (Angela Ro Ro, 1979), música que Bethânia gravou há 40 anos em registro evocado pelo toque do piano de Marcelo Galter, tecladista arregimentado para o show Claros breus pelo diretor musical Letieres Leite.

Maria Bethânia cai no suingue do samba da Bahia no show 'Claros breus' — Foto: Mauro Ferreira / G1

(Maria Bethânia cai no suingue do samba da Bahia no show ‘Claros breus’ — Foto: Mauro Ferreira / G1)

Na longa madrugada de Claros breus, Bethânia abre e fecha janelas emocionais, dando novas asas a Anjo exterminado (Jards Macalé e Waly Salomão, 1972) e dando a decisão no samba Cobras e lagartos (Sueli Costa e Hermínio Bello de Carvalho, 1975) – “Nunca mais vai beber as minhas lágrimas” – antes de cair no suingue do samba do Recôncavo da Bahia natal na cadência aliciante de A beira e o mar (Roberto Mendes e Jorge Portugal, 1984).

Se repete gestos e inflexões ao encarar mais uma vez Olhos nos olhos(Chico Buarque, 1976), Bethânia dá Grito de alerta (Gonzaguinha, 1979) a capella e sorve toda a sensualidade feminina contida em Da taça(2015), embriagante e abolerada canção sentimental da lavra de Chico César.

O link pertinente do sucesso sertanejo Evidências (José Augusto e Paulo Sérgio Valle, 1989) com Da taça atiça emoções primárias, reais, tão ao gosto do povo. Mesmo filtradas pelo requinte de Bethânia, essas emoções estão todas lá, intensas, no estado de poesia que adquire caráter político quando a cantora reconduz o espectador ao seminal porto afro-brasileiro com Yayá Massemba (Roberto Mendes e José Carlos Capinam, 2003), tema que evoca negritudes ancestrais na sequência do arrebatador solo de percussão de Luizinho do Jêje.

Maria Bethânia faz samba-enredo em feitio de oração no show 'Claros breus' — Foto: Mauro Ferreira / G1

(Maria Bethânia faz samba-enredo em feitio de oração no show ‘Claros breus’ — Foto: Mauro Ferreira / G1)

Ao dar voz a esse Brasil negro que pulsa nas entranhas do povo, Bethânia encontra sentidos ocultos em Sinhá (João Bosco e Chico Buarque, 2011) e reconta História pra ninar gente grande (Tomaz Miranda, Deivid Domênico, Mama, Márcio Bola, Ronie Oliveira, Danilo Firmino e Manu da Cuíca, 2018) fazendo o samba-enredo campeão da Mangueira evoluir em feitio de oração sem atravessar.

A súplica de Luminosidade – inédita de Chico César – põe Claros breusem altar sagrado. E, nesse altar, a deusa música e o canto são reverenciados por Bethânia nos versos de Sete trovas (Consuelo de Paula, Rubens Nogueira e Etel Frota, 2009) com o mesmo fervor e devoção com que a vida é louvada em Música, músicas (2019), inédita do compositor Roque Ferreira.

Mesmo que peça ao garçom para apagar a luz no arremate do show com Bar da noite (Bidu Reis e Haroldo Barbosa, 1953), Bethânia volta antes de o pano de fechar definitivamente para ordenar, no bis fechado com Encanteria (Paulo César Pinheiro, 2007), que nenhuma outra fagulha se acenda no breu.

“Quem clareia aqui sou eu”, sentencia, plena da luz desse show realmente iluminado que ratifica que, de perto ou de longe, o imensurável tamanho de Maria Bethânia é o mesmo.